A COESÃO REFERENCIAL, OS GÊNEROS DO DISCURSO, OS ADOLESCENTES E O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA

                                                                              

Célia Regina Crestani – mestre em Lingüística - professora da UTFPR

 

RESUMO: O presente artigo discorre sobre coesão referencial abordada por KOCH, os gêneros do discurso segundo BAKHTIN, servindo como base para discussão de questionamentos levantados por alunos do Ensino Médio quanto à pertinência ou não de se repetir palavras nos textos: por que textos publicitários e poéticos têm “licença” para repetir? É um apanhado geral de aulas em que a pesquisa sobre esse questionamento foi levada adiante pelos alunos e pela professora.

 

PALAVRAS-CHAVE: coesão referencial, gêneros do discurso, interação verbal, língua, linguagem.

 

 

ABSTRACT: The present article discourses over referencial cohesion boarded by KOCH, the sorts of the speech says BAKHTIN, serving as base for quarrel of questionings raised by pupils of the Average Education as the relevancy or repeating the words texts. Why advertising and poetical texts have “ license” to repeat?It is a general reunion lessons where the research about this questioning was taken ahead by the pupils and teacher.

 

KEYWORDS: referencial cohesion; sorts of the speech;, verbal interaction;  language.

 

0. Introdução. Propaganda de companhia de gás natural: “Sabe aquela história do gás que acaba, do humor que acaba, da paciência que acaba? Também acabou”. Esta propaganda foi usada, em sala de aula, com o objetivo de ilustrar a tese de KOCH (1997), segundo a qual a coesão referencial retoma elementos lingüísticos da superfície textual e a coesão seqüencial estabelece diversos tipos de relações semânticas ou pragmáticas, à medida que o texto progride. Neste exemplo, pôde-se explorar o uso do pronome relativo, uma vez que o anúncio “brinca” com a oração ‘que acaba’, em que o ‘que’ a cada momento retoma algo diferente e assim vai acentuando os sentimentos que a dona de casa enfrenta com os problemas de gás. Neste exemplo, é fácil perceber que a repetição é um recurso de coesão que contribui para expressar o efeito de sentido que se quer obter, pré-determinado pelo autor do texto. Dessa conclusão, nasceram algumas questões, postas pelos alunos, a respeito da sempre ouvida admoestação, ao longo do percurso escolar: “não repitam palavras no texto”!

Alguns alunos lembraram, inclusive, de outros anúncios, em que a repetição ocorria. Propaganda de chocolate BIS: “Um é pouco, dois é pouco, três é pouco”, em que se explorava o tão conhecido ditado popular: ‘Um é pouco, dois é bom, três é demais’. Outros, recordaram de poemas: “Nosso céu tem mais estrelas, nossas várzeas têm mais flores, nossos bosques têm mais vida, nossa vida mais amores”. Ou: “Tinha uma pedra no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra”.

Caminho aberto, portanto, para que refletíssemos sobre o objetivo de se utilizar, nestes casos, a tão "condenada" repetição.

Do ponto de vista da teoria lingüística, segundo KOCH (1997), a recorrência de termos (reiteração de um mesmo item lexical) produz o que se chama de coesão seqüencial parafrástica. Nessa repetição, um novo sentido vai sendo impresso à palavra que está sendo repetida. Não é, portanto, uma repetição pura e simples, mas adquire um novo significado, pois vai contribuindo para intensificar os diferentes efeitos.

Na primeira propaganda, gás, humor e paciência, quando acabam, têm efeitos     (ou conseqüências) diversos. Já o item lexical ‘acabou’ também remete para outro significado: o de que a companhia de gás vai resolver o problema das donas de casa, incomodadas com a ocorrência.  Na propaganda do BIS, o item lexical ‘pouco’, reiterado,  permite que se obtenha o efeito de ‘querer mais’. Na poesia de Gonçalves Dias, o item lexical ‘nosso’ (e seus assemelhados), nos dá uma sensação de posse patriótica, que nos enche de orgulho. O poema de Drummond, por sua vez, ao reiterar a existência da pedra, aumenta nossa sensação dos problemas enfrentados...Nestes dois poemas, observamos a existência de recorrência de estruturas que produzem um paralelismo sintático: utilizam-se as mesmas estruturas sintáticas, modificando-se apenas os itens lexicais.

A explicação, porém, ainda parecia insuficiente e a justificativa de ‘licença poética’ um tanto quanto desgastada pelo uso...recorrente. Solução: buscar auxílio na teoria dos gêneros do discurso, para observarmos se ela poderia nos oferecer algo mais na procura de respostas à questão levantada, mesmo porque, segundo KOCH (1989) “a coesão não é condição necessária nem suficiente para a construção do sentido”.

O questionamento levantado pelos alunos, porém, não se prendia ao explicitado pela tese da coesão, porque ninguém estava colocando em dúvida o sentido da propaganda, que parecia claro, e para o qual a coesão contribuía. A dúvida era: ‘por que a propaganda e o poema podem utilizar a repetição e nós, os alunos, não? E quando, levados pela insubordinação o fazemos, somos punidos?’

A mim pareceu uma boa questão, embora, em outras oportunidades, com esta mesma indagação, eu tenha saído pela tangente, falando em ‘textos de natureza diferente’. Tudo bem, são textos de natureza diferente[i], mas de que natureza estamos falando? Seriam mesmo de natureza diferente, ou a teoria dos gêneros do discurso poderia nos fornecer resposta mais convincente e mais apropriada?

Na sala de aula, aula seguinte: “Todas as esferas da atividade humana, por mais variadas que sejam, estão relacionadas com a utilização da linguagem” (BAKHTIN,279:  1997). Esta afirmação, colocada em quadro de giz, fez os alunos indagarem: Qual é a atividade humana a que pertencem os textos poéticos e publicitários? Que uso fazem da língua estes profissionais? Em quem pensam quando escrevem? Por que podem...repetir? Na verdade, eu começava a me cansar dessa pergunta, porque me parecia que o que havia por trás dela era uma rabugice de adolescente. Mas como ainda estava no início, resolvi dar mais tempo para perder a paciência. E continuamos a investigar. “O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas, não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais – mas também, e sobretudo, por sua construção composicional” (Idem).

Conteúdo temático, estilo verbal, construção composicional de um lado...condições específicas, finalidades das esferas da atividade humana de outro... e mais questões a serem explicitadas: qual é a finalidade da esfera da atividade poética? E  da atividade publicitária? E da atividade do aluno? Elas se imbricam? Ou se distanciam? Quais as condições específicas de produção do aluno? E do poeta? E do publicitário? A atividade do publicitário é a mesma que a do poeta? (Como os dois usam da repetição...)

Nestas alturas, eu já estava arrependida de ter dado tanta importância a uma questãozinha tão sem importância...Mas agora era tarde e era preciso prosseguir, sob pena de perder a credibilidade perante meus alunos. Sem contar que muitos deles continuavam a me trazer textos poéticos e publicitários com repetições. Como se eu não soubesse que eles existiam!

 Um aluno sugeriu o seguinte: ora, se toda atividade humana está ligada à linguagem, por que não investigamos (ou entrevistamos) pessoas de determinadas profissões, para ver se o tipo de linguagem que elas utilizam revela suas profissões? Sugestão logo aceita pela maioria, para quem a sala de aula parece uma prisão! E lá se foram, de gravador em punho[ii], entrevistar um juiz, um jogador de futebol, uma dona-de-casa, um médico, um economista, um poeta, um publicitário e um padre. As perguntas: 1) Fale-me de sua profissão. 2) Em que ela auxilia na construção de um mundo melhor? Esta atividade, aliás, ainda não está concluída e pode vir a ser útil para futuras investigações. (Acredito que o fato de investigar os tipos de dizer possa auxiliar a compreensão de que não somos seres unívocos, mas plurais e, portanto, muita surpresa pode vir dessa investigação...)

Aula seguinte: era importante ressaltar, para os alunos, a correlação intrínseca entre as esferas da atividade humana e as formas de dizer, para que pudéssemos refinar nossa percepção da heterogeneidade e complexidade das práticas de linguagem. Os falantes, na teoria de Bakhtin, não são vistos como pessoas isoladas que se encontram, mas como seres socialmente organizados. Isso significa dizer que as pessoas se constituem e vivem em “feixes de relações sociais, feixes que são, para cada um,  múltiplos, não fixos e nunca totalmente coincidente de pessoa para pessoa (ainda que membros de um mesmo grupo social) o que nos dá uma pequena noção da vasta heterogeneidade envolvida  na vida social e na constituição das pessoas”. (FARACO, 03:2000). Nesse sentido, somos todos seres pluri-ativos, isto é, envolvemo-nos sempre em múltiplas atividades das esferas da atividade humana. Essa era a questão principal para que o resultado da entrevista proposta pelo aluno não lhes trouxesse uma surpresa, como, por exemplo, perceberem que a dona-de-casa não falava só de crianças, receitas e empregadas...Assim, era preciso ressaltar que eles, alunos, não agiam sempre como alunos, mas como colegas, filhos, consumidores, namorados(as), amigos, vizinhos, irmãos,  e para cada uma dessas atividades, havia uma espécie de linguagem,  da qual eles se utilizavam sem nem mesmo perceber que haviam trocado de fala (ou de gênero). Parecia...tão natural!

E a pesquisa continuou. Passo seguinte: era preciso deixar claro que falamos e escrevemos sempre por gêneros. Ao proferirmos nossas falas ou ao redigirmos nossos textos, é do interior dos gêneros que o fazemos, pois estamos sempre situados no interior de cronotopos[iii]. Traduzindo: no interior de um tempo e de um espaço. E de uma atividade. Neste ponto, alunos perceberam a diferença entre a sua atividade discente e a sua própria atividade de amigo, irmão, namorado, etc. ‘Ora, se no meu interior há mais de um “eu”, situados espaço-temporalmente, imagine então a diferença entre a minha atividade e a do poeta, ou do publicitário, que têm outras finalidades...diferentes das  minhas’. Ou seja, ao escrever para sua namorada, ele percebeu que não usaria o mesmo tipo de linguagem que usaria para escrever para sua professora, ou colega, ou amigo, ou mãe, etc...

Bingo! Primeira resistência quebrada, era imperioso continuar. ‘Então, não posso repetir porque há construções composicionais que pedem um certo estilo  de escrever, com um determinado conteúdo temático, em condições específicas, que levam em conta a finalidade do texto, que deve casar com a intenção do autor. Que intenção? Chamar a atenção? Provocar sensações? Criar atmosferas? Insurgir-se? Provocar? Enredar? Atemorizar? Enternecer? Ludibriar? Ou tantas outras...

Todas as respostas são sempre provisórias e esta não seria diferente. Mas o fato de buscarmos por elas já é um ponto altamente positivo na aquisição dos conhecimentos. Portanto, neste ponto, é necessário discorrer um pouco mais academicamente sobre a questão dos gêneros do discurso e sua contribuição para os estudos da linguagem.  

1. Fundamentação Teórica Segundo Bakthin (1997).  Na obra ‘Estética da criação verbal’, Bakhtin discorre sobre o assunto, dialogando criticamente com a tradição dos estudos lingüísticos que se caracteriza por privilegiar o estudo sistêmico da linguagem verbal e ignorar ou simplificar a realidade lingüística enquanto interação social. Segundo ele, é preciso redesenhar a ciência da linguagem.

 

Esses dois pontos de vista sobre um único e mesmo fenômeno concreto da língua (o ponto de vista gramatical e o estilístico) não devem, porém, excluir-se mutuamente, substituir-se mecanicamente um ao outro, devem combinar-se organicamente (com a manutenção metodológica de sua diferença) sobre a base da unidade real do fato lingüístico...Irei mais longe: o estudo do enunciado, em sua qualidade real da comunicação verbal, também deve permitir compreender  melhor a natureza das unidades da língua como sistema: as palavras e as orações. (p. 287)

 

Ou seja, em nenhum momento Bakhtin, ao refletir sobre os gêneros do discurso, dispensa o conhecimento da língua enquanto sistema. O que diferencia a sua teoria das teorias tradicionais, assim, é o fato de não pensar os gêneros em si, como conjunto de objetos que partilham determinadas propriedades formais. Os gêneros não são enfocados apenas pelo viés estático do produto (das formas), mas principalmente pelo viés dinâmico da interação social, da atividade humana. Assim, ele designa gêneros do discurso como os tipos relativamente estáveis de enunciados que se elaboram no interior de cada atividade humana. Ao dizer que eles são relativamente estáveis, ele está apontando para a historicidade dos gêneros e a imprecisão de suas características e fronteiras.

Dar importância à historicidade dos gêneros significa chamar a atenção para o fato de os tipos não serem definidos de uma vez para sempre. Eles comportam contínuas transformações, são maleáveis e plásticos, porque as atividades humanas são dinâmicas, e estão em contínua mutação. Por isso, as formas relativamente estáveis de dizer no interior de uma atividade qualquer têm de ser abertas à contínua remodelagem, capazes de absorver o novo e a mudança. A imprecisão, por seu lado, pode ser explicada pelo repertório de gêneros ir se ampliando, diferenciando-se, à medida que a própria atividade humana se desenvolve e fica mais complexa. Desse modo, Bakhtin articula uma compreensão dos gêneros que combina estabilidade e mudança: reiteração (à medida que aspectos da atividade recorrem) e abertura para o novo, para a mudança (à medida que aspectos da atividade mudam).

Para Bakhtin, envolver-se em uma determinada esfera da atividade humana implica desenvolver também um domínio dos gêneros que lhes são peculiares. Assim, aprender os modos sociais de fazer é também aprender os modos sociais de dizer. Bakhtin chama a atenção (p. 303:1997) para o fato de que existem pessoas que, mesmo dominando a língua, sentem-se constrangidas quando têm que participar de uma assembléia, de uma reunião de sindicato, de uma conversa entre pessoas de outras esferas da comunicação verbal, pelo simples fato de não dominarem, na prática, as formas do gênero daquela esfera. E nestas horas, não adianta dominarem perfeitamente todas as regras gramaticais ou terem domínio sobre o sistema da língua. O constrangimento, nestes casos, deve-se ao fato de não estarem familiarizados com o gênero do discurso desta esfera de atividade.

Outro ponto importante a se pesquisar é quanto à recepção dos enunciados.  Podemos dizer, baseados em Bakhtin, que os receptores não são destinatários passivos, não apenas compreendem, mas também respondem ativamente aos enunciados[iv], pois “toda compreensão é prenhe de resposta e, de uma forma ou de outra, forçosamente a produz: o ouvinte torna-se locutor. (BAKHTIN, 1997:290). Do mesmo modo “o locutor não espera uma compreensão passiva, mas uma resposta, uma concordância, uma adesão, uma objeção, uma execução, etc (Ibidem, p.291), tanto que sua busca é sempre direcionada a convencer, a influenciar, a provocar uma resposta, etc. Essa alternância dos sujeitos falantes pode ser vista mais claramente nas réplicas do diálogo, cuja dinâmica representaria a “forma clássica de comunicação verbal” (Ibidem, 294). Mesmo em se tratando de enunciados em esferas mais complexas, como a artística, a científica, etc., ainda assim, é encontrada essa representação do diálogo.

Pareceria, à primeira vista, que essa dinâmica do diálogo não permitiria entrever onde começam e terminam os enunciados. Embora realmente as réplicas do diálogo, assim como os enunciados mais complexos, sejam elos na cadeia da comunicação verbal, é possível perceber neles um acabamento específico, ou seja, é possível saber o fim de um enunciado, condição que torna possível uma resposta e a alternância dos sujeitos. Bakhtin assinala três fatores que possibilitam esse acabamento: “1) o tratamento exaustivo do objeto do sentido; 2) o intuito, o querer dizer do locutor; 3) as formas típicas de estruturação do gênero do acabamento”. (BAKHTIN, 1997, p.299)

Olhando para os anúncios e as poesias anteriormente citadas, poderíamos dizer que são elos na cadeia da comunicação verbal e que, por isso, estão relacionados a outros textos que os precederam e aos que virão como resposta a eles, mesmo que a resposta não seja ao seu conteúdo, como é o caso do presente estudo, mas à forma como foram construídos. Estamos, aqui, pensando nesta forma e indagando sobre a sua pertinência ou não, indagando por que não podemos imitá-los ou porque somos impedidos de fazê-lo, quando produzimos nossos textos. Neste sentido, estamos nos indagando: o que distingue estes tipos de texto dos textos produzidos na escola, como os textos dissertativos?

A possível resposta pode ser a dada por Bakhtin, quando cita os três fatores acima apontados: o tratamento do objeto, o intuito do locutor e as formas do gênero. São estes três fatores interligados que particularizam a poesia ou o texto publicitário e os estruturam. O objeto de sentido, em ambos, recebe um acabamento relativo, ajustando-se às características próprias de seus gêneros: poético e publicitário. Começa pela extensão: um texto publicitário geralmente é curto, imposição posta pelo alto custo de uma propaganda. Já a poesia pode ter um acabamento menos limitado pelo espaço de publicação, mas pode ter seu acabamento limitado por outros fatores, como por exemplo, a espécie de texto: um hai-kai? Um soneto? São formas de texto impondo o seu relativo acabamento. Além disso, o tempo de elaboração do texto é outro fator que os organiza. Um anúncio publicitário tem uma vida mais curta do que a poesia (dependendo da poesia, é claro!). Um anúncio, para ser elaborado, precisaria, teoricamente falando, de menos tempo, uma vez que anuncia produtos de uma época mais próxima da percepção do leitor. Uma poesia pode tratar de assuntos com um distanciamento temporal maior.

No segundo aspecto, “os parceiros diretamente implicados numa comunicação, conhecedores da situação e dos enunciados anteriores, captam com facilidade e prontidão o intuito discursivo, o querer dizer do locutor e, às primeiras palavras do discurso, percebem o todo de um enunciado em processo de desenvolvimento” (grifos do autor – p. 300-301). Nas poesias, percebemos claramente as respostas dadas a angústias humanas (tinha uma pedra...) ou o nacionalismo exacerbado (nosso céu tem mais estrelas!) Nas propagandas, o cotidiano da existência, ou o prosaico da vida, para evocar Bakhtin, nos dão a percepção das respostas que estão sendo dadas. Aliás, sem estas respostas, não seria possível entender, do ponto de vista discursivo, nenhum dos enunciados citados.

O terceiro aspecto diz respeito à escolha ou a apropriação de um determinado gênero, consoante com a intenção do autor. Assim, o acabamento do texto dar-se-á segundo a escolha feita de determinado gênero, que imporá as regras de seu funcionamento. O tratamento do objeto está igualmente relacionado ao intuito discursivo, que determina sua amplitude e as fronteiras de seu enunciado. Em todos os nossos enunciados, há uma forma padrão e relativamente estável de estruturação de um todo. (Ibidem, p. 301 – grifos do autor). Isso significa dizer que moldamos nosso dizer e nosso escrever aos gêneros existentes. Segundo Bakhtin, esses gêneros nos são dados quase como nos é dada a língua materna, que dominamos com facilidade antes mesmo que lhes estudemos a gramática. Assim é que, mais adiante, no texto ‘Os gêneros do discurso’, Bakhtin afirma que “o gênero escolhido dita-nos o seu tipo com suas articulações composicionais”.

Neste ponto, faz-se imperioso retomar o início do texto para refletirmos sobre a coesão referencial e suas implicações para o estudo da linguagem, bem como sua relação com os gêneros do discurso.  Num dos últimos textos de KOCH , “Princípios de textualidade ou ‘características de um bom texto’”, a autora afirma que “existem propriedades comuns a todos os gêneros de textos, aquelas justamente que fazem com que uma seqüência de palavras ou frases possa ser considerada um texto”. A isso ela denomina textualidade (grifo da autora). Para tanto, ela afirma, ainda, fundamentar sua concepção de linguagem no sócio-interacionismo, visto como lugar de “inter-ação” dos sujeitos sociais, empenhados numa atividade sócio-comunicativa. Este entendimento parece aproximá-la muito da concepção dos gêneros discursivos bakhtinianos, principalmente no que diz respeito ao enunciado[v], se textualidade significar a língua viva.  Mas para que se possa fazer essa assertiva, seria necessário um estudo mais aprofundado de seu texto, o que não é objeto do presente trabalho. O que fica claro é a pertinência da afirmação de Bakhtin sobre a importância da língua nos estudos da linguagem.

Quanto aos adolescentes, parceiros de investigação, foram responsáveis pelo fato de trilharmos o caminho da busca, com sua tradicional impertinência, provando mais uma vez como a interlocução vista por Bakhtin é poderosa. É a partir dela, se tivermos humildade suficiente, que podemos avançar, pois nos permite operar nas falhas da estrutura, nas falhas das nossas certezas, implodindo algumas e construindo outras. Sabemos que as respostas ainda estão sendo construídas, mas espero, pelo menos, ter suscitado neles o germe da dúvida, para que possamos continuar curiosos e que, dessa curiosidade, possa nascer a vontade da pesquisa e o interesse pelo estudo da língua.

Mas apenas a questão lingüística do ponto de vista formal é muito pouca para tirarmos lição ou proveito da teoria dos gêneros do discurso elaborada por Bakhtin. A formação do professor de Português, segundo Magda Soares, deve também estar preocupada em dar respostas à sociedade a respeito do por que ensinamos esta disciplina. E é baseada nisto que entendo a necessidade de ampliar, conforme o entendimento bakhtiniano de língua, o principal motivo de pesquisarmos nesta área. No caso específico da questão levantada pelos alunos, é importante ressaltar a pertinência de tal teoria nos dias atuais: ela é uma forma de orientar ou de sinalizar o nosso pertencimento a determinada comunidade. Esse pertencimento, ao mesmo tempo que nos direciona, ensina-nos também a entender e respeitar outros pertencimentos, de outros grupos, com outras atividades e que se utilizam de outros gêneros. Além disso, nos ensina também que a resposta do ouvinte, (“por que não posso repetir”?) mesmo impertinente, quando verbalizada, precisa ser levada em consideração, para que o diálogo se estabeleça de modo mais efetivo, seja entre professores e alunos, pais e filhos, marido e mulher, árabes ou judeus, etc..., uma vez que são valores que estão na arena.

Essas questões, porém, apontam para aquilo que consideramos a utopia bakhtiniana: a de que todos têm direito à fala. Como conciliar isso com um mundo valorado por um sistema excludente, que ordena o discurso de modo autoritário, é o que nos parece impossível. O que não é impossível, porém, é dar a conhecer, é não sonegar a informação a respeito dessas relações de poder, que estão no cerne de toda a violência, seja ela de que espécie for.

 

                                                    REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal.  2ª. Ed. São Paulo: Martins Fontes,1997

 

FARACO, Carlos Alberto, TEZZA, Cristóvão, CASTRO, Gilberto.(orgs) Diálogos com Bakhtin. Curitiba: Editora da UFPR, 1996.

 ______________________. Linguagem e Diálogo. As idéias lingüísticas do círculo de Bakhtin. Curitiba: Criar Edições, 2003

_______________________. Relatório sobre os gêneros do discurso. Curitiba: Mimeo, 1999.

 

KOCH, Ingedore G. Villaça. Princípios de textualidade ou ‘características de um bom texto’. São Paulo: Mimeo, 2003

________________________. A coesão textual. São Paulo: Contexto,1989

 

RODRIGUES, Rosângela Hammes. A relação entre gênero, enunciado e texto: uma leitura bakhtiniana”. Boletim da ABRALIN, Fortaleza, no. 26, 2001.

 

SOARES, Magda. Que professor de português queremos formar? Boletim da ABRALIN, Fortaleza, v. 25.

 

Notas:



[i] Mais adiante, percebo que esta afirmação está equivocada, pois, para Bakhtin, natureza diferente dos textos refere-se aos gêneros primário e secundário: nos exemplos, ambos são gêneros secundários.

[ii] Depois de um tempo para o preparo da entrevista, que levou o tempo restante da aula. Os alunos se organizaram em equipes para as entrevistas.

[iii] Expressão cunhada por Bakhtin, no texto: ‘Os gêneros do discurso’. In: Estética da criação verbal. (p. 279-326). Martins Fontes, 1997)

[iv] Isso foi, talvez, o que me levou tentar responder à questão dos alunos: os ouvintes questionadores não são apenas receptores passivos; são locutores também.

[v] Há identidade e diferença entre gênero e enunciado. Uma ótima explicação a respeito dessa questão pode ser encontrada em RODRIGUES: “A relação entre gênero, enunciado e texto: uma leitura bakhtiniana”.