VOCÁBULO NU ?

Juarez Poletto

 

 

Resumo:
	Leitura do poema A Mulher e a Casa, de João Cabral de Melo Neto,
com o objetivo de mostrar que a poesia do referido autor tende a desmis
tificar os termos classicamente nomeados como poéticos.

 

 

 

João Cabral de Melo Neto "aguça o seu modo de ver e dizer a paisagem e os objetos, (...) levando ao extremo o intuito de despir o poema de traços supérfluos e cadências sentimentais." (Alfredo Bosi) Dono de uma poesia óssea, pétrea, o autor parece esconder o poético, ou melhor, encontrá-lo no rigor semântico dos versos. Mergulhar na obra de Cabral não é enveredar-se na frieza ou na falta de emoção, como alguns querem, mas adentrar-se na objetividade da escolha vocabular exata, da expressão mais lógica para traduzir a simplicidade do objeto estético. Sua poesia não se faz de expressões grandiosas, pois sua grandiosidade está em transfigurar em palavras e sentido acessível "a dor que deveras sente". Trata-se, pois, de poesia substantiva, cuja beleza reside na depuração do verbo, no desnudar o vocábulo, como se pode constatar em :

A MULHER E A CASA

1	Tua sedução é menos	           2	Mesmo quando ela possui
        de mulher do que de casa:	        tua plácida elegância, 
        pois vem de como é por dentro           esse teu reboco claro,
        ou por detrás da fachada.	        riso franco de varandas,
3	uma casa não é nunca	           4	Seduz pelo que é dentro,
        só para ser contemplada;	        ou será, quando se abra;
        melhor: somente por dentro	        pelo que pode ser dentro
        é possível contemplá-la.	        de suas paredes fechadas;
5	pelo que dentro fizeram            6	pelos espaços de dentro:
        com seus vazios, com o nada;	        seus recintos, suas áreas,
        pelos espaços de dentro,	        organizando-se dentro
        não pelo que dentro guarda;	        em corredores e salas,
7	os quais sugerindo ao homem	   8	exercem sobre esse homem
        estâncias aconchegadas,	                efeito igual ao que causas:
        paredes bem revestidas	                a vontade de corrê-las
        ou recessos bons de cavas,              por dentro, de visitá-las.
                     (João Cabral de Melo Neto, Quaderna)
 
Cabral trabalha freqüentemente com o duplo e aqui o faz, através de dois vocábulos impregnados de múltiplas facetas provenientes da simbologia rica que ambos suscitam. São oito estrofes, portanto número par e, com o título, forma parelha. O poema é em segunda pessoa, o poeta se dirige à mulher.

Mulher é mito poético amplamente cantado e simboliza por vezes o inefável; outras, a sedução; ainda, o aconchego materno; vincula-se ao transcendente como mãe, sem perder o terrestre como genitora, enfim, é mais relacionada ao sentir que ao ser.

Casa é, em princípio, o comum, o físico, o terreno; contudo, uma gama de sensações eclodem a partir das imagens que a palavra evoca, frutos do devaneio ou do sonho que lembra o passado. "Casa é o nosso primeiro universo." Assim, CASA pode ser posta em condição similar a MULHER, pois ambos são vocábulos que trazem à tona a simbologia: esta a do encantamento poético, aquela das lembranças vividas, do aconchego, do berço; lar, enfim, infância até - portanto sonhos, fantasias e, por que não, o sobrenatural "a casa de meu pai tem muitas moradas".

João Cabral, todavia, procede inversamente ao exposto: não eleva a "simplicidade"de CASA à "poeticidade" de MULHER, mas desmestifica esta para igualá-la àquela. O sentimento e o erótico da mulher somem e ela passa a ser vista com a naturalidade com que se vê pedra, faca, cana ou rio.

Até que ponto é possível ou verdadeiro esse desvinculamento do leitor? Seria possível isolar um vocábulo a tal ponto de lhe retirar as circunstâncias todas de que está impregnado pelas inúmeras vivências que possui nas experiências de cada leitor? Para Bachelard , a simbologia que deriva de um vocábulo faz parte dele, é pois lado desse poliedro. A esses questionamentos , não me permite a ciência nem a ocasião responder; não deixo, porém, de levantá-los, considerando que ocorreram durante a investigação dos versos de Cabral.

O poeta trabalha a comparação, enaltecendo o interior da CASA para valorizar o da MULHER. "A mulher que se desmitifica é a que seduz pelo seu interior, como uma casa."( Luiz Costa Lima ) Contrastando o dentro com o fora da casa e da mulher, enfatiza-se o valor do interior de ambas.

Nas rimas "casa/fechada"; "contemplada/contemplá-la"; "abra/fechadas"; "nada/guarda"; "aconchegadas/cavas"; "causas/visitá-la" há incidência reiterada do fonema [a], dando idéia de claridade, amplitude, mesmo referindo-se ao dentro, o que também mostra uma valoração de destaque, sobretudo porque o dentro é fechado pelas paredes, mas vasto, rico, amplo e é através do qual se contempla, de fato, tanto a CASA como a MULHER. Dentro está a verdade límpida, cristalina, transparente.

Embora as rimas sejam abertas, ocorre uma freqüência acentuada de sons nasais no todo do poema: "vem, quando, elegância, varandas, somente, dentro, fizeram, organizando-se, recintos, estâncias, exercem, homem". Também esse contraste revela o dentro e o fora. Sendo a rima um acordo, uma aproximação, fica claro que o uso delas no poema, no pararelo MULHER/CASA (esses vocábulos formam um único corpo poético) faz uma rima semântica. Assim, CASA=CORPO - CORPO = MULHER - MULHER = CASA.

Diante da mulher, o poeta não se põe contemplativo, como os que sacralizaram o tema, ao contrário, seu enfoque é dinâmico, visto que se propõe a "percorrê-la ", " visitá - la ", desvendá-la, como se faria a uma casa.

Cabral atinge a meta da desmitificação do vocábulo? Sem dúvida ele racionaliza os termos MULHER/CASA, mas a poesia não prescinde da razão. Não é preciso ser louco para ser poeta. Aliás, o que é o poético? Onde se esconde ou se revela? Certamente está além das coisas e nelas próprias, além das palavras e nelas mesmas. Por que mais original que um "riso franco de varandas"? Cabral apenas se libertou das superficialidades, dos sentimentalismos redundantes para recriar a poesia. Isso, entretanto , é outra análise...